sexta-feira, janeiro 07, 2011

O que são dias ruins? [1/6]


Um gritou ecoou no apartamento de cima, aquele casal passava por dificuldades há algum tempo. As brigas eram constantes. Ela quebrava vasos e depois chorava. Nenhum dos vizinhos intervia, assim eu também fazia, só ouvia com pena da moça.
Certo dia uma dessas discussões foi mais além. Ela gritou, e não foi como das outras vezes. Deixei de ser só a plateia, quebrei a barreira da quarta parede e subi as escadas rapidamente para o andar de cima, bati na porta.
Uma voz máscula que ao mesmo tempo soou amedrontada falou por um vão na porta:
– Quem é e o que quer?
Humildemente perguntei se estava tudo bem com a moça, pois, eu havia ouvido o grito. Há um tempo vi essa moça no elevador. Ela era linda, olhos escuros, cabelo escuro e uma pele muito clara, uma tatuagem que saia da blusa pegando parte do pescoço. Eu não sabia seu nome, nem o do cafajeste que possivelmente tinha batido nela. Só sabia que eles moravam ali.
O rapaz respondeu:
 – Olha amigo, não é nada. Só da o fora, estamos em dias ruins.  Eu ouvi a voz da moça ao fundo “ME TIRA DAQUI, PELO AMOR DE DEUS!”.
Eu intervi e falei: – Cara, a mulher que tá ai dentro implora por ajuda e você vêm me dizer que esta tudo bem? Deixa a moça sair fora ou eu arrombo essa porra de porta. Com um tom de voz apreensivo, ele empurrou a porta violentamente e falou: “CAI FORA VAGABUNDA! ESSE BABACA SE IMPORTA COM VOCÊ ENTÃO VAI EMBORA COM ELE”. Eu podia dar um soco na cara dele, mas a mulher estava chorando de dor e com um olho roxo.
Simplesmente peguei na mão dela e falei: “vem comigo, você precisa descansar, vamos pro meu apartamento, você me conta tudo enquanto a gente toma um café, pode ficar tranquila”.
Ela aceitou o convite, mas não por que realmente queria, e sim pelo fato de não ter pra onde ir, eu percebi isso.
Descemos as escadas, entramos no meu apartamento, era ode numero 71. Ela se sentou no sofá e eu fui até a cozinha pegar um café.
Coloquei a garrafa de café e duas xicaras na mesa de centro para nos servir, em seguida sentei na poltrona que ficava em frente ao sofá que ela estava. Só então reparei, ela vestia uma camiseta daquele cafajeste, ficava praticamente como um vestido nela, era graciosa. Não dava pra saber se tinha algo por baixo, mas isso não vinha ao caso...
Eu perguntei a ela: – Qual é seu nome?
Ela, olhando para dentro de sua xicara com uma voz fraca respondeu:
– Lauren.
– Ah, Lauren, prazer. Eu sou Enzo.
Você quer me contar algo? Por que aquele cafajeste te deu esse soco?
Eu sei que você nem me conhece, mas ouço suas brigas, fico preocupado. Você quer ir a policia? Posso te acompanhar.
Ela passou suavemente a mão em seu olho roxo e falou: “– O Lucas, aquele babaca”... Soluçou na hora de completar a frase e começou a chorar.
–Lauren, tá tudo bem?
Ela colocou a xicara na mesa de centro e levantou dizendo: – Posso tomar um banho? Preciso relaxar, prometo te contar tudo depois que eu sair, Enzo.
É claro que eu não neguei que ela se banhasse, ofereci uma toalha e fiquei no sofá vendo TV até que ela voltasse.
Alguns minutos se passaram e ela voltou vestindo a mesma roupa... Eu perguntei se ela queria que eu buscasse alguma outra roupa no apartamento dela... Ela não respondeu.
– Enzo me desculpa.
– Ué? Desculpa por quê? Você não me fez nada.
– Olhe, eu estou no seu apartamento, tomei o seu café, choraminguei na sua frente, te deixei preocupado e ainda usei o seu chuveiro.
– Lauren, não liga pra isso. Você ainda quer me contar o que aconteceu?
Ela passando suavemente a mão perto do olho roxo começou...
“Eu conheci o Lucas numa balada na vila Olímpia, ele me parecia um bom partido. Ficamos juntos por seis meses, ele me chamou pra dividir o apartamento. Sabe, cheguei a pensar que tinha achado o homem da minha vida, o pai dos meus filhos, mas com o tempo ele se mostrou o monstro que é. Ele não me respeitava, tinha problemas com drogas e me batia, mexia com outras mulheres em minha presença e...”.
Saquei que o cara era um cafajeste e ela queria pular fora. Ele pra evitar enfiou um soco no olho da coitada.
Perguntei se ela tinha lugar pra ficar...
– Olhe Enzo. Meus pais não aprovaram meu namoro com o Lucas, muito menos o fato da filinha deles sair de casa para morar com um cara qualquer que eles não conheciam direito. Seria doloroso bater na porta deles pedindo pra voltar, ainda mais com o olho roxo.
Era um domingo à noite enquanto ela me contava a história...
– Olhe Lauren, se você quiser ficar aqui por alguns dias... É meio apertado um pouco bagunçado... Mas você pode dormir aqui no sofá, sei lá. Ela apreensiva falou: – Olhe, eu mal te conheço...
– Tá, eu já entendi...
Ela rapidamente reformulou a resposta: – Não, não é isso. Desculpa, estou sendo boba. Você aparece como um anjo me oferecendo ajuda e eu fico pensando besteira a seu respeito. Sinceramente me desculpe. Obrigado pelo convite, sim vou ficar até que eu me arrume.
Eu perguntei se ela já tinha jantado, ela disse que não.
Pedi uma pizza pra gente. Conversa vai, conversa vem... Percebi que tínhamos muito em comum. Falidos no amor que curtiam punk rock.
A pizza chegou, comemos e ela disse: – Amanhã tenho que trabalhar, mas não vou aparecer na agência (ela era publicitaria) com esse olho roxo, ainda mais, minhas coisas estão todas no apartamento daquele...
– Lauren, você pode ligar no seu trabalho e inventar uma desculpa esfarrapada qualquer, ou eu vou à Rua 25 de março e compro um atestado falsificado de uns sete dias ou o tempo necessário pra esse seu olho se recuperar, sei lá...
– Não quero te incomodar. E brincou: – “Não muito”. Fico com a opção do telefonema.
– Já é tarde, vamos dormir. Você quer uma coberta? Um lençol? Quer alguma coisa antes de dormir?
Ela não disse nada, só balançou a cabeça que não.
Mesmo assim levei um lençol e um travesseiro que eu guardava de reserva.

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